O que é a Creatina?
A Creatina é um composto produzido naturalmente pelo nosso organismo (maioritariamente no fígado e nos rins), mas que também pode ser obtido através de alimentos ricos em proteína, como a carne e o peixe.
Nos músculos, a Creatina participa na produção rápida de energia, razão pela qual é um dos suplementos mais utilizados por pessoas que praticam exercício físico, especialmente para aumentar a força, a massa muscular e o desempenho físico.
A Creatina monohidratada é o tipo mais comum e testado em suplementação. Por ser a forma habitualmente usada na investigação científica, é a que apresenta maior evidência na melhoria do rendimento e no ganho de massa muscular.
Mito: A Creatina monohidratada causa insuficiência renal em pessoas saudáveis
Nas doses habitualmente utilizadas — em geral, 3 a 5 gramas por dia — os estudos clínicos publicados nas últimas duas décadas não demonstraram que a Creatina provoque perda da função renal em adultos saudáveis, incluindo em atletas acompanhados durante vários anos, adolescentes e pessoas com diabetes tipo 2.
Uma revisão recente de ensaios clínicos concluiu que a suplementação pode aumentar ligeiramente a creatinina medida no sangue, mas não demonstrou uma redução significativa da Taxa de Filtração Glomerular (TFG), isto é, da capacidade efetiva dos rins para filtrar o sangue.
Qual é a diferença entre Creatina e creatinina?
É importante não confundir Creatina com creatinina. A creatinina é uma substância produzida a partir do metabolismo muscular e da própria Creatina, e é o parâmetro analítico em Análises Clínicas mais utilizado para estimar a função renal através do cálculo da Taxa de Filtração Glomerular.
Como a Creatina suplementada pode aumentar a quantidade de creatinina formada, as análises sanguíneas de uma pessoa que utilize suplementos de Creatina podem mostrar valores de creatinina mais elevados e um resultado de “Taxa de Filtração Glomerular diminuída”, mas isso não significa que exista, necessariamente, lesão renal.
Saiba mais:
O que é a Insuficiência Renal?
Facto: Uma subida da creatinina merece ser interpretada com cuidado!
Uma subida da creatinina no sangue não deve, contudo, ser ignorada. Em ensaios clínicos, a utilização de suplementos de Creatina foi associada a um aumento pequeno e, habitualmente, transitório da creatinina, embora sem alterações relevantes da ureia ou da função de filtração renal avaliada por outros métodos.
Isto significa que avaliar a creatinina isolada nem sempre é suficiente para avaliar os rins de uma pessoa que toma este suplemento.
O médico deve interpretar o resultado no contexto clínico, considerando, por exemplo:
- a massa muscular
- o tipo e a dose de suplemento
- a hidratação (saiba mais)
- a tensão arterial (saiba mais)
- a presença de diabetes e outros fatores de risco cardiovascular (saiba mais)
- o consumo de outros medicamentos
- as restantes análises, incluindo avaliação da urina
Em algumas situações, para esclarecer se existe lesão renal, os médicos têm à sua disposição outros métodos de avaliação da função renal que não dependem da creatinina.
Mito: Se é seguro para pessoas saudáveis, também é seguro para pessoas com doença renal
A evidência científica mais sólida sobre a segurança renal dos suplementos de Creatina monohidratada vem, sobretudo, de estudos em pessoas saudáveis, frequentemente jovens e fisicamente ativas.
Esses resultados não podem ser automaticamente aplicados a quem já tem doença renal crónica, perda de proteínas na urina (proteinúria), diabetes, hipertensão mal controlada, doença cardiovascular, idade avançada ou toma vários medicamentos.
Nas pessoas com doença renal crónica, existe o risco teórico dos suplementos de Creatina (à semelhança das dietas ricas em proteínas) induzirem um fenómeno de “hiperfiltração renal”, que pode provocar um declínio mais acelerado da função renal, pelo que a sua utilização não é recomendada, sobretudo nas fases mais avançadas da doença.
Pessoas com doença renal devem aconselhar-se com um Nefrologista antes de tomar Creatina.
Contudo, nas pessoas com doença renal conhecida, a investigação disponível ainda é limitada e este fenómeno nunca foi demonstrado com o uso de suplementos de Creatina.
Pelo contrário, existe inclusivamente alguma evidência da Creatina - em doses adequadas - ser benéfica para as pessoas com doença renal (incluindo pessoas em diálise), nomeadamente na preservação da força e da massa muscular e na melhoria da capacidade física funcional.
Apesar disso, os dados científicos existentes não são suficientemente robustos para recomendar a sua utilização por rotina.
Assim,
ter doença renal não significa que a utilização de Creatina seja proibida, mas significa que a decisão não deve ser tomada por iniciativa própria e deve ser sujeita a acompanhamento especializado por um
Nefrologista.
Podem existir riscos quando a Creatina é usada em doses excessivas, em produtos de composição duvidosa, combinada com outras substâncias, ou por pessoas que desconhecem uma doença renal prévia.
Deste modo, é necessário avaliar a causa e a gravidade da doença renal, os resultados das análises, a alimentação e o estado nutricional, as restantes patologias, a medicação e os objetivos da pessoa.
Em resumo
- Em pessoas saudáveis, a Creatina em doses recomendadas não causa doença renal
- Um ligeiro aumento da creatinina durante o uso de suplementação Creatina é normal e não significa, por si só, que os rins estejam a piorar
- Quem toma Creatina deve informar sempre o médico, em consulta, para que os exames sejam interpretados corretamente
- Em pessoas com doença renal, sobretudo em fases avançadas, pode haver benefícios de suplementação de Creatina em contextos específicos, mas a decisão deve ser sempre médica
Quando deve marcar uma consulta de Nefrologia?
Uma consulta especializada é recomendada se tem doença renal crónica ou creatinina persistentemente elevada, proteínas ou sangue na urina, diabetes, hipertensão, apenas um rim funcional, história de lesão renal aguda, antecedentes familiares de doença renal ou se pretende iniciar Creatina monohidratada enquanto toma vários medicamentos.
Na consulta de Nefrologia, é possível esclarecer se existe realmente alteração da função renal, avaliar os exames de forma adequada e definir um plano individualizado de vigilância, ajudando-o a tomar decisões informadas, seguras e adequadas à sua saúde renal.