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Desporto para crianças: a escolha certa para os seus filhos

data de publicação12 setembro 2024 Dra. Andreia Mota pediatra na Cintramédica artigo revisto por
Dra. Andreia Mota  |  Pediatra
Imagem Lateral
professora com os aulunos na aula de educação física em uma escola
Escolher um desporto para crianças pode ser mais complicado do que parece. Por um lado há que conciliar horários de trabalho dos pais, aulas e tempos de estudo dos filhos, assim como questões de conveniência como a proximidade de casa ou da escola. Por outro lado, é fundamental escolher um desporto que seja adequado às necessidades do seu filho em cada momento, de modo a contribuir de forma positiva para um desenvolvimento saudável nas diferentes fases da infância/juventude. E não menos importante é que seja um desporto em que o seu filho/a se sinta feliz. Vejamos, então, os vários aspetos a considerar no momento de escolher uma modalidade desportiva para crianças e adolescentes.
 

Atividade física como promoção de saúde no presente e futuro

As vantagens da prática desportiva regular são óbvias em qualquer idade. No entanto, nas idades mais jovens, tem vantagens tanto a nível físico (com a melhoria da coordenação motora, da flexibilidade, do fortalecimento muscular, da mobilidade articular e prevenção de obesidade) quanto a nível psicológico (na regulação das diferentes emoções, em particular na redução da ansiedade e na maior tolerância à frustração, na melhoria da cognição e da autoestima e na promoção da disciplina). Benefícios que em muito transcendem o âmbito desportivo e têm óbvias implicações nas atividades escolares e de vida diária das crianças.
Não menos importante, e como reflexo da inatividade física dos últimos anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adverte que “a atividade física regular é um fator chave de proteção para prevenção e o controle das doenças não transmissíveis (DNTs), tais como as doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade e vários tipos de cancro. A atividade física também beneficia a saúde mental, incluindo a prevenção do declínio cognitivo bem como de sintomatologia depressiva e ansiosa. Deste modo, contribui para o bem-estar geral". Infelizmente, a OMS também verifica que, de acordo com estimativas globais, cerca de 81% dos adolescentes não cumprem as suas recomendações relativas à prática de atividade física. Recordemos, então, as recomendações da OMS para a prática de atividade física para crianças e adolescentes entre os 5 e os 17 anos de idade:
  • Média de 60 minutos por dia de atividade física moderada a intensa, sendo que a maior parte dessa atividade física deverá ser aeróbica.
  • Atividade aeróbica moderada a intensa, assim como a atividade física que fortaleça os músculos e ossos, devem ser realizadas, pelo menos três vezes por semana.
À luz destas evidências, é da responsabilidade de pais e educadores assegurar que as crianças e adolescentes têm acesso a uma atividade física regular e adequada à sua idade, com o mesmo compromisso com que sustentam outros pilares de saúde, como uma alimentação saudável, adequada higiene do sono, boas práticas educativas e a vacinação.
 

Adaptar a escolha da modalidade à criança/adolescente

Um dos aspetos mais importantes é que a criança/adolescente tenha prazer na prática regular da atividade desportiva escolhida. E para que tal aconteça, é recomendado que a escolha recaia não só no gosto, como também na personalidade. Por exemplo, se a criança/adolescente tiver dificuldade no reconhecimento dos limites, tiver uma personalidade desafiadora ou reduzida tolerância à frustração, o desporto de equipa pode ser uma boa forma de desenvolver as suas competências sociais. Por outro lado, os desportos individuais confrontam a criança com as suas capacidades, reforçando a sua autoconfiança quando superam etapas. Idealmente, recomenda-se que cada criança/adolescente experimente várias atividades desportivas, de modo a poder escolher a que mais gosta e com a qual se identifica mais. Se possível, e por forma à prática desportiva complementar, o ideal seria a prática de um desporto coletivo e outro individual.

Vantagens dos desportos individuais

As modalidades individuais como a natação, ginástica, patinagem, ténis, artes marciais, esgrima, equitação, entre outros, são desportos completos que ajudam a desenvolver a psicomotricidade da criança/adolescente, otimizando a flexibilidade, a coordenação motora e a resistência, além de que promovem a adoção de uma postura corporal adequada. A prática destes desportos constitui uma base importante para o sucesso futuro em desportos mais complexos. Por outro lado, ajudam a promover o empenho e o esforço da criança/adolescente, recompensando-a quando evolui. No entanto, e em alguns casos, poder conduzir a um maior isolamento. É importante estar atento à evolução.

Vantagens dos desportos de equipa

Os desportos coletivos como, por exemplo, o futebol, o rugby ou o basquetebol são excelentes para fomentar o espírito de equipa e o sentido de interajuda, além de promoverem o cumprimento de regras e, quando bem dirigidos, o respeito pelo outro. Podem ser os mais indicados para crianças/adolescentes com dificuldade em respeitar os outros e as regras, ou em lidar com a frustração, uma vez que promovem o relacionamento e estabelecem limites individuais e coletivos. É, no entanto, importante verificar se a criança/adolescente se integra de forma saudável na equipa. Como ponto menos positivo poderemos apontar, em alguns casos, o espírito competitivo que, em determinadas idades, poderá não ser saudável.

Há ainda a considerar desportos que adquirem tanto a versão individual como coletiva, de acordo com o objetivo com que são praticados. São exemplos, a ginástica e a patinagem, entre outros. No global, conseguem convergir as vantagens de ambas as práticas desportivas, sendo, por isso, consideradas atividades desportivas bastante completas.
 

Idade e competição: tudo a seu tempo

A idade com que as crianças se iniciam na prática desportiva é outro dos fatores a ter em conta. Até aos 4 ou 5 anos, pode haver um benefício na prática de modalidades como a natação, ginástica ou o ballet. Após os 6 ou 7 anos, já podem ser introduzidos desportos como o ténis, de carater individual, mas nestas  idades é frequente começar a haver maior interesse por desportos coletivos, como o futebol, andebol, rugby, basquetebol ou voleibol. No entanto, é importante ter em consideração que no início do 1º Ciclo não é construtivo haver demasiada pressão competitiva. O espírito de equipa e de entreajuda, o saber ganhar e perder, o respeitar o adversário ou o outro são competências importantes a nível social que devem ser privilegiadas. A este respeito, é importante que pais e educadores estejam atentos a qualquer elemento da família desportiva, treinadores ou progenitores, que coloquem a vitória acima do desportivismo, criando um ambiente de pressão, ansiedade e frustração nas crianças/adolescentes.
A competição e o desporto federado não é recomendado antes dos 8 ou 9 anos de idade, dado que até esta idade as crianças não estão preparadas para o esforço, exigência e sacrifício que este nível de prática desportiva exige.  Se, por um lado, aumenta o risco de lesões devido à imaturidade orgânica, a exigência de obtenção de resultados numa fase do desenvolvimento em que ainda não se gerem bem as emoções, pode gerar uma pressão e ansiedade desnecessárias e ser contraproducente, não alcançando o benefício que se pretende que a prática desportiva traga a cada um.
 

Desporto para crianças: 5 modalidades recomendadas

Considerando as várias condicionantes, desde o gosto pessoal à personalidade, ao grau de exigência pretendido e à  idade, deixamos aqui algumas considerações sobre as 5 modalidades mais praticadas em Portugal. Apontamos também, como sua informação, para a lista de modalidades do Desporto Escolar da Direção-Geral da Educação. Informe-se na escola do seu filho sobre as opções disponíveis.

Futebol

É, sem surpresas, a modalidade com mais seguidores em Portugal. É recomendado a partir dos 5 anos e, enquanto atividade física, promove o desenvolvimento da locomoção, da coordenação e do equilíbrio. Além disso, reforça a capacidade cardiovascular e respiratória da criança/adolescente. É um desporto coletivo que privilegia o trabalho em equipa, o respeito pelo outro e o cumprimento de regras.

Andebol

Depois do futebol é a segunda modalidade com mais atletas federados em Portugal. Ajuda a desenvolver a coordenação motora, a tonificação muscular e o sistema cardiorrespiratório.
Além de promover o espírito de equipa, este desporto desenvolve a capacidade de tomar decisões rápidas,. Os primeiros contactos com o andebol podem ser realizados a partir dos 7 ou 8 anos de idade.

Ginástica

É uma das modalidades mais recomendadas, sobretudo a partir do pré-escolar. Além de exercitar a flexibilidade e a coordenação motora, a ginástica aumenta a autoestima e o sentido de disciplina, assim como a capacidade de concentração e foco.

Natação

É conhecido como um dos desportos mais completos. A nível físico desenvolve a capacidade cardiorrespiratória, promove a resistência e desenvolve a coordenação motora. Por outro lado, aumenta a capacidade de concentração e foco, assim como da autoconfiança que, progressivamente, começa a nadar distâncias cada vez maiores.
Pode ser iniciada logo no primeiro ano de vida. No entanto, é recomendável a sua prática apenas após o sexto mês de vida, de modo a prevenir infeções respiratórias altas.

Artes Marciais

Engloba modalidades que reforçam a capacidade de concentração e o foco, enquanto desenvolvem valores como o respeito e disciplina. O judo e a capoeira, por exemplo, têm como princípios a não-violência e o equilíbrio entre o corpo e a mente, ajudando ao desenvolvimento global da criança/adolescente.
A sua prática pode ser iniciada ainda no pré-escolar, entre os 4 e os 5 anos de idade.

Artigo revisto por

Andreia Mota

Pediatra (Cédula Profissional: OM 50926)

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