Em 2024, foram identificados 489 casos de infeção por Legionella, em Portugal, o número mais elevado da última década. Mas o que é realmente a Legionella?
A Legionella é a bactéria responsável por uma pneumonia grave, conhecida como Doença dos Legionários.
Embora seja uma infeção respiratória pouco frequente, pode ter consequências graves, sobretudo em pessoas idosas e/ou com comorbilidades.
Compreender como se transmite e se previne esta infeção é essencial para garantir a segurança da qualidade de água e proteger a saúde pública.
Onde se apanha a Legionella?
A Legionella prefere águas mornas (temperaturas entre 20°C e 45°C) e estagnadas e vive em:
- ambientes aquáticos naturais: rios, lagos e solos húmidos
- ambientes aquáticos artificiais: sistemas de canalização, torres de arrefecimento de sistemas de climatização, ar condicionado, jacuzzis, banhos turcos, saunas, piscinas, chuveiros e torneiras.
Existem cerca de 50 espécies diferentes do género Legionella, mas a mais frequentemente envolvida nas infeções humanas é a Legionella pneumophila.
Como se transmite a Legionella?
É muito importante realçar que a Legionella não se transmite de pessoa para pessoa, nem através da ingestão de água contaminada.
Transmite-se pela inalação de gotículas de vapor de água contaminada (aerossóis) de minúsculas dimensões que transportam a bactéria para os pulmões, depositando-a nos alvéolos pulmonares.
Quais são os sintomas de infeção por Legionella?
Como já referido, a Doença dos Legionários é uma forma grave de pneumonia causada pela bactéria Legionella.
O diagnóstico da infeção por Legionella baseia-se na avaliação clínica e na realização de exames laboratoriais específicos.
Normalmente, os sintomas surgem de 2 a 10 dias (média 5 e 6 dias) após a exposição. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe com:
- febre elevada
- arrepios
- dores de cabeça
- dores musculares
- tosse seca, que pode evoluir para tosse com expetoração
- dificuldade respiratória
Podem também ocorrer sintomas gastrointestinais (náuseas, vómitos e diarreia), confusão mental e/ ou alterações neurológicas. A pneumonia pode evoluir para insuficiência respiratória e falência multi órgãos.
Nos casos mais graves, a infecção por Legionella pode conduzir à morte.
Existem outras infeções menos graves associadas à Legionella como a chamada Febre de Pontiac.
Quais são os principais grupos de risco?
A infeção por Legionella afeta sobretudo pessoas com sistema imunitário enfraquecido ou com doenças crónicas. Os principais grupos de risco são:
- adultos com idades acima dos 40- 50 anos
- fumadores
- pessoas com:
- doenças crónicas: pulmonares, cardíacas, renais, hepáticas, diabetes
- doenças oncológicas
- sistema imunitário debilitado
- pessoas sob tratamento com corticóides, imunossupressores ou transplantados
A Doença dos Legionários raramente atinge pessoas com menos de 20 anos de idade, pelo que as crianças imunocompetentes não estão em risco de infeção.
Na Europa, ocorre na época de Junho a Outubro, período com temperaturas mais elevadas, que favorecem a bactéria em sistemas aquáticos.
Como se trata a Legionella?
O tratamento baseia‑se em antibióticos apropriados e internamento hospitalar em situações mais graves. O diagnóstico e início precoce do tratamento contribuem para uma recuperação mais rápida.
Mesmo com tratamento eficaz, a taxa de mortalidade varia consoante a gravidade da doença e as comorbilidades existentes.
Como prevenir e controlar a infeção provocada por Legionella?
Em locais públicos ou privados que utilizem sistemas de água com aerossóis (como hotéis, balneários ou hospitais), deve estar assegurada a existência de planos específicos de controlo de Legionella e a formação aos trabalhadores.
Medidas preventivas
Devem ser tomadas as seguintes medidas preventivas:
- limpar e desinfectar regularmente os chuveiros e torneiras
- vigiar e desinfectar periodicamente torres de arrefecimento, sistemas de climatização, humidificadores, SPAS, piscinas, rede de água quente/fria
- evitar aerossóis de água em locais de risco (jacuzzis, piscinas, torres de refrigeração)
- assegurar a vigilância e a manutenção periódica dos sistemas de água, realizando análises e desinfecções, especialmente após períodos de inatividade.
Cuidados a adotar durante um surto
Em caso de surto, existem algumas medidas que se podem tomar para reduzir a exposição à bactéria:
- a água da rede pública pode ser consumida, mas deve-se evitar beber diretamente da torneira em locais onde haja risco de formação de gotículas
- nos espaços públicos, evitar locais com sistemas de refrigeração ou fontes ornamentais sem manutenção conhecida, bem como zonas de banhos como piscinas ou jacuzzis
- em casa, optar pelo banho de imersão e desinfetar periodicamente os chuveiros (com soluções adequadas, seguindo as instruções de segurança)
- nos termoacumuladores, a água deve ser mantida a temperaturas altas (acima de 75 °C) para reduzir o risco de proliferação da bactéria
A não esquecer sobre a Legionella
O aumento de casos de Doença dos Legionários em Portugal reforça a importância de conhecer os riscos e as formas de prevenção. As pessoas com maior risco de infeção devem estar especialmente sensibilizadas, sobretudo em ambientes hospitalares, hotéis ou lares de idosos.
A transmissão direta entre pessoas não ocorre, pelo que a prevenção se centra na manutenção das infraestruturas e da qualidade da água. No entanto, qualquer sintoma respiratório persistente, febre elevada ou dificuldade em respirar deve ser avaliado pelo profissional de saúde.