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Cancro da mama antes dos 40 anos: quem está em risco?

24 Outubro 22   |   297
O cancro da mama, pelo seu impacto, é uma das doenças mais temidas pela população feminina. Em Portugal, anualmente, surgem cerca de 7000 novos casos e  morrem 1800 mulheres. Ė uma doença que afeta a vida pessoal, familiar, social e profissional, além do tratamento poder comprometer, não só a qualidade de vida, mas também a autoestima e a feminilidade, que tão bem caracteriza a mulher.
O rastreio do cancro da mama é recomendado pela Direção-Geral da Saúde para toda a população feminina entre os 50 e os 69 anos. Porém, pode afetar mulheres além destas idades, em particular mulheres mais novas e com menos de 40 anos, em virtude de um risco pessoal elevado. Aliás, de acordo com o Registo Oncológico Nacional, o cancro da mama em faixas etárias mais jovens (entre os 30 e os 44 anos) representa cerca de 10% de todos os casos diagnosticados. 
Apesar das estatísticas, os avanços da Ciência Médica permitem obter, hoje em dia, taxas de sobrevida a 10 anos na ordem dos 85%, caso o cancro da mama seja detetado e alvo de tratamento em fases iniciais.
Neste sentido, e porque o diagnóstico precoce é a melhor forma de prevenção, estivemos à conversa com a Dra. Catarina Gama Pinto, responsável pela Consulta de Patologia da Mama na Cintramédica, para perceber o que podem, as mulheres com menos de 40 anos, fazer para evitar o cancro da mama e que este deixe de ser uma ameaça à sua saúde e à sua vida.
 
 
Quando é que uma mulher com menos de 40 anos deve estar preocupada com o cancro da mama?
Em primeiro lugar, o cancro da mama é uma preocupação que deve ser transversal ao longo da vida da mulher. Em qualquer consulta de rotina, quer de Ginecologia, quer de Medicina Geral e Familiar, a mama deverá ser observada anualmente. Depois, também a própria mulher deve saber que, a partir dos 20 anos, todos os meses, após a menstruação, deverá fazer o seu autoexame. Desta forma, o médico assistente e a própria pessoa são a base para um diagnóstico precoce em idades mais jovens.
Em segundo lugar, abaixo dos 40 anos, todas as mulheres com risco acrescido para cancro da mama deverão antecipar o seu rastreio, de acordo com o risco individual, após uma avaliação clínica personalizada em consulta.
 
Como é que se avalia esse risco individual?
Por um lado, através da história familiar, verificando a existência de familiares diretos com cancros da mama, ovário, próstata ou pâncreas, sendo situações que podem alertar para a hipótese de cancro hereditário, dependendo do número de casos e idade à data do diagnóstico.
Por outro lado, através dos antecedentes pessoais, história ginecológica e obstétrica, não esquecendo a densidade mamária de cada mulher, e fatores relacionados com o estilo de vida. Por exemplo, se tivermos uma mulher fumadora, com consumo regular de bebidas alcoólicas, sedentária e com uma alimentação desequilibrada, são sinais de alerta para um risco aumentado para cancro da mama. É muito importante avaliar o risco individual de cada mulher e, para isso, é fundamental as pessoas consultarem o seu médico.
 
Caso se verifique numa paciente familiares próximos com cancro da mama, com que idade se deve fazer uma mamografia?
Para começar, essa mulher provavelmente não entrará no rastreio populacional habitual, fazendo mamografia seguramente antes dos 50 anos. Imaginemos uma mulher, cuja mãe foi diagnosticada com cancro da mama aos 40 anos, sem mutações genéticas associadas, e é o único caso na família - neste caso a mamografia estará indicada 5 anos antes do diagnóstico da mãe, ou seja, aos 35 anos, irá começar o seu rastreio. Se forem identificadas mutações genéticas na família, então, essa mulher deverá ser estudada e, caso seja portadora de mutação com significado clínico, o rastreio deverá começar aos 25 anos com Ressonância Magnética anual e Ecografia Mamária, intercalada a cada 6 meses. No limite, aos 45 anos (é o nosso deadline, uma vez que a partir desta idade tem um risco muito elevado de desenvolver cancro da mama ou do ovário) deverá fazer uma cirurgia redutora de risco, que consiste numa mastectomia subcutânea, que poupa a pele e retira todo o tecido glandular, e a ooforectomia que retira os ovários. Um exemplo paradigmático disso é o caso da Angelina Jolie.
 
Além dos riscos genéticos, que outros fatores de risco poderão ser referidos e qual a importância de os conhecer?
Tal como já foi referido, a história ginecológica e obstétrica da mulher é um factor a ser avaliado. A menarca precoce, ou seja, a primeira menstruação antes dos 12 anos, ou a menopausa tardia, após os 55 anos, são fatores de risco. O uso contínuo de pílula ou terapia hormonal de substituição, por um período superior a 5 anos, tem também um risco relativo acrescido. A primeira gravidez, cada vez mais tardia nas sociedades modernas, e depois dos 35 anos, é igualmente um fator de risco, à semelhança da ausência de gestações ou amamentação ao longo da vida. A obesidade é outro fator de risco a ter em conta, mas apenas na menopausa, uma vez que mantém a mulher exposta a níveis de estrogénios, por um período de tempo muito mais prolongado. Nestas mulheres, a gordura corporal transforma-se em estrogénio, elevando os níveis dessa hormona em circulação, e aumentando assim o risco de cancro da mama.
Convém, desta forma, todas as mulheres conhecerem bem os seus fatores de risco, e são muitos, além da genética. Não é só a idade ou o facto de ser do sexo feminino. Há um conjunto de fatores comportamentais que podem contribuir igualmente para o risco de cancro da mama. 
 
Nas mulheres mais jovens há algum fator que possa dificultar o diagnóstico?
Sim, a densidade elevada do tecido mamário, característica das idades mais jovens, mas hoje em dia contornada pela Mamografia 3D - Tomossíntese ou Ressonância Mamária, exames estes com maior sensibilidade e taxa de deteção de lesões infracentimétricas não palpáveis. 
 
Qual é o risco de cancro da mama antes dos 40 anos? As mulheres devem estar preocupadas?
Devem estar sensibilizadas, conhecer o seu corpo e os fatores de risco da doença, bem como consultar regularmente o seu médico assistente.
Felizmente, a maioria dos diagnósticos de cancro da mama são feitos em mulheres com mais de 50 anos, e, neste sentido, eu diria que, sem fatores de risco, estar a fazer rastreio antes dos 40 anos, de forma generalizada, não faz sentido, exceto se surgirem sinais ou sintomas mamários, como seja, a título de exemplo, um nódulo palpável ou um corrimento mamilar.
 
Como é gerido o tratamento do cancro da mama, tendo em vista a qualidade de vida da mulher, sobretudo em idades muito jovens?
Um dos grandes desafios do cancro da mama em idades jovens prende-se com o facto dessas mulheres ainda não terem sido mães. Nestes casos, oferecemos a possibilidade de preservação da fertilidade, ou seja, a criopreservação dos óvulos, contornando a toxicidade dos tratamentos sob os ovários, os quais podem colocar em risco a funcionalidade futura dos mesmos. Os óvulos são colhidos, antes de qualquer intervenção terapêutica, ficam congelados e, ao final de 2 a 3 anos, as mulheres terão a possibilidade de concretizar o seu sonho de constituir família e até mesmo amamentar, desde que se tenha optado por uma cirurgia conservadora da mama que, felizmente, é uma prática cada vez mais comum, com excelentes resultados estéticos e oncológicos.
Outro aspeto a ter em conta é a possibilidade destas mulheres entrarem em menopausa precoce, após os tratamentos oncológicos, mas felizmente a Ciência evolui em todos os sentidos e já temos várias armas terapêuticas não hormonais para minimizar os sintomas associados, garantindo uma excelente qualidade de vida a estas mulheres.
 
E em todos os tipos de cancro da mama a preservação da fertilidade é possível?
Sim, desde que sejam detetados em estadios iniciais e com uma boa perspetiva de sobrevida a longo prazo.
 
Aconselha mulheres com menos de 40 anos que não tenham fatores de risco a realizar mamografia?
Não, desde que não apresentem igualmente ao exame objetivo sinais de patologia mamária.
Antes dos 40 anos, pedir uma mamografia sem razão aparente, pode dar aso a um excesso de falsos positivos, que conduzem a exames invasivos desnecessários, contribuindo para um acréscimo no estado de ansiedade da mulher.
 
Mas o cancro da mama continua a ser a segunda principal causa de morte por cancro entre as mulheres. O que podem todas as mulheres fazer?
Todos nós, enquanto indivíduos, devemos ter um compromisso para com a sociedade e para connosco próprios, desenvolvendo um papel ativo individual na prevenção dos cancros, e não é só o cancro da mama, todos em geral. 
Adotar estilos de vida saudáveis, através de uma alimentação equilibrada, prática regular de exercido físico, períodos de repouso reparadores, evitar o stress quotidiano e o consumo de bebidas alcoólicas, bem como o tabaco, são medidas simples e que estão ao nosso alcance, as quais ajudam a manter o nosso sistema imunitário fortalecido, ativo e em alerta constante, de forma a que potenciais células malignas não possam desenvolver-se e causar doença.

Entrevista a

Catarina Gama Pinto

Ginecologista