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A Obesidade explicada pelo médico Especialista nesta doença

data de publicação01 maio 2026 Dr. Rodrigo Otávio Carvalho de Oliveira  médico cirurgião geral na Cintramédica entrevista a
Prof. Dr. Rodrigo de Oliveira  |  Médico Cirurgião Especialista em Obesidade
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Obesidade, excesso de peso, doença metabólica crónica
Durante séculos, o excesso de peso foi associado a prosperidade e abundância. Hoje, a ciência é clara: a Obesidade é uma doença metabólica crónica, com impacto profundo na saúde pública mundial. Números do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que mais de metade da população adulta portuguesa (53,2%) tem excesso de peso (37,3%) ou Obesidade (15,9%). Nesta entrevista com o Prof. Dr. Rodrigo de Oliveira, investigador e médico cirurgião especialista em Obesidade e Doenças Metabólicas na Cintramédica, iremos esclarecer causas, riscos e tratamentos desta doença. 

O que é a Obesidade? 

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - A Obesidade é uma doença metabólica crónica, caracterizada por uma acumulação excessiva de gordura corporal. Foi reconhecida como doença pela Organização Mundial de Saúde há mais de 30 anos. 
Está associada a uma disfunção no hipotálamo, a região do cérebro que controla o apetite, o metabolismo e a produção de hormonas. 

A Obesidade uma doença multifatorial e influenciada por: 

  • comportamentos alimentares desajustados
  • estilo de vida inadequado
  • ambiente físico e cultural condicionante
  • predisposição genética
Mesmo com alimentação saudável, muitos doentes precisam de acompanhamento especializado para controlar a Obesidade de forma eficaz.
 

Quando é que uma pessoa é considerada obesa?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Uma pessoa adulta é considerada obesa quando o seu IMC é igual ou superior a 30 kg/m2. O IMC é calculado dividindo o peso (kg) pela altura ao quadrado (m2).
 

 

Como calcular o seu Índice de Massa Corporal (IMC):
IMC = Peso a dividir por Altura2


Como interpretar o resultado do seu IMC:


Que tipos de Obesidade existem?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - A Obesidade pode ser classificada de acordo com o IMC e a distribuição da gordura corporal. Segundo o IMC, existem 3 tipos principais de Obesidade em adultos:
 
  • Obesidade Grau 1: IMC entre 30 e 34,9 kg/m2
  • Obesidade Grau 2: IMC entre 35 e 39,9 kg/m2
  • Obesidade Grau 3: IMC igual ou superior a 40 kg/m2 (Obesidade grave)
     
Importa sublinhar que o IMC, quando considerado isoladamente, apresenta algumas limitações. Esta avaliação deve ser complementada por outros indicadores como é o caso da medição da circunferência abdominal, que indica a quantidade de gordura abdominal presente numa pessoa. A Obesidade pode variar conforme a quantidade e a distribuição da gordura no corpo (especialmente abdominal) e a composição corporal.
Normalmente, a medição da circunferência abdominal é feita com uma fita métrica, posicionada ao redor do abdómen, ao nível do umbigo ou da parte mais estreita da cintura, sem comprimir a pele. Esta medida é particularmente relevante porque o excesso de gordura na região abdominal está associado a um maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras condições metabólicas.


Qual a especialidade médica que trata a Obesidade?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Idealmente, o tratamento da Obesidade deve ser acompanhado por uma equipa multidisciplinar, que pode incluir Endocrinologista, Nutricionista, Psicólogo e, em casos específicos, Cirurgião Bariátrico e Metabólico. 
Cada especialista intervém em diferentes aspetos do tratamento, como alimentação, comportamento, metabolismo e cirurgia.
 

Se a Obesidade é considerada uma doença, por que continua a gerar estigma?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Um dos grandes problemas é que esta informação nunca chegou de forma clara à população. Mesmo com o conhecimento disponível, a estigmatização e o assédio moral continuam a ser uma preocupação grave. 
Muitos doentes enfrentam tipos de comentário ou críticas de familiares que podem atrasar a procura de ajuda especializada.

Existe ainda um estereótipo muito enraizado de que a pessoa com Obesidade é alguém com um excesso de peso muito evidente. No entanto, isso não corresponde sempre à realidade. Há muitos doentes com Obesidade — e mesmo com Pré-Obesidade — que não apresentam um aspeto físico extremo, mas que já têm alterações metabólicas significativas e risco elevado de doença.
 

Quais são os riscos e doenças associadas à Obesidade? 

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - O indivíduo com Obesidade é um doente que apresenta alto risco para várias doenças. Doenças que provavelmente já tem e não sabe.
 
A Obesidade é o principal fator de risco para outras condições de saúde, tais como:
Muitas vezes, acontece os doentes estarem a ser medicados para outras condições (Hipertensão Arterial ou Diabetes) sem perceberem que existe uma doença de base comum: a Obesidade.
A Obesidade pode reduzir a esperança média de vida entre 15 e 20 anos, além de ter um impacto significativo na qualidade de vida e no aparecimento de doenças graves.
 

A Obesidade tem cura?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - A Obesidade é uma doença incurável. Sendo uma doença ligada ao hipotálamo e influenciada por vários outros fatores, não tem, de momento, uma cura definitiva. 
A cirurgia bariátrica pode promover a perda de peso, mas não trata a causa subjacente da doença. Se a cirurgia for revertida, a Obesidade pode regressar.
É sempre importante explicar ao doente que a Obesidade não tem cura definitiva. O objetivo do tratamento é alcançar a remissão, ou seja, a diminuição de sintomas, mantendo a saúde e o peso controlados pelo maior tempo possível.
 

Como é a sua abordagem médica em consultas da Obesidade?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - A chave está em ouvir as pessoas. A maioria dos doentes nega a doença. Tenho de os fazer entender que têm uma doença, mas que vão ficar bem. 
Cada pessoa tem o seu gatilho para compreender a doença e iniciar o tratamento adequado. Importa sublinhar que não existe um tratamento contra a Obesidade comum e único para todos os pacientes.

Com o acompanhamento médico adequado conseguem-se resultados muito positivos, tais como:
  • o metabolismo melhora
  • dá-se um aumento da energia e da capacidade de raciocínio
  • retoma-se a rotina diária sem a sensação de letargia (cansaço extremo, sonolência e lentidão física ou mental)
As minhas consultas demoram sempre um pouco mais de tempo que o habitual, porque preciso de entender como está o doente.
Cada estágio do tratamento passa pelo trabalho conjunto de uma equipa de saúde organizada e identificada, composta por Nutricionista, Psicólogo, Endocrinologista e Cirurgião Bariátrico Metabólico, em que cada especialista corrige desequilíbrios específicos. 
É essencial afastar os sentimentos de medo, de vergonha, e mostrar que o primeiro passo é simples: procurar avaliação médica para compreender a doença e definir o melhor caminho.
 

Como é feito o diagnóstico e o encaminhamento para tratamento? 

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - O Índice de Massa Corporal (IMC) ainda é uma ferramenta importante para dar acesso dos doentes aos tratamentos: abre portas aos pré-obesos, que apesar de não apresentarem excesso de peso significativo, estão a desenvolver outras condições indicadoras da doença. De facto, existe hoje o conceito de Pré-Obesidade (IMC 25–29,9), semelhante ao que acontece com a Pré-Diabetes. Nestes casos, o doente pode ainda não apresentar valores muito elevados de glicose, mas já tem resistência à insulina e aumento de gordura visceral, o que justifica um acompanhamento e intervenção médica precoces.

Até 1991, a Cirurgia Bariátrica – cirurgia específica para o tratamento da Obesidade  – era indicada apenas para doentes com IMC igual ou superior (≥) a 35, Obesidade Grau II,  e com comorbilidades associadas, isto é, com outras doenças e condições de saúde.
Em 2021, as diretrizes foram atualizadas: agora, a cirurgia bariátrica pode ser considerada em doentes com IMC ≥ 30, Obesidade Grau I, desde que apresentem doenças metabólicas associadas.

A longo prazo, a cirurgia bariátrica é, realmente, o tratamento mais eficaz para muitos doentes, mas não é indicada para todos nem deve ser o primeiro passo.  O caminho correto começa sempre com uma avaliação médica individualizada, exames diagnósticos e definição de tratamento multidisciplinar — que pode incluir alterações no estilo de vida, apoio nutricional, psicológico, medicação e, em casos específicos, cirurgia. 
Houve tentativas de criar critérios adicionais para diagnóstico, mas o risco de excluir doentes que precisavam de tratamento era elevado. O objetivo mantém-se em encaminhar os doentes o mais cedo possível para avaliação médica.

 

Qual é a sua opinião sobre os medicamentos para a perda de peso, como o Ozempic®?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Estamos a viver uma nova era no tratamento da Obesidade, com medicamentos inovadores que representam uma oportunidade real para muitos doentes. No entanto, é fundamental que sejam utilizados com critério e acompanhamento especializado.
Um exemplo é o Ozempic®, indicado para o tratamento da Diabetes Tipo II. Este medicamento atua através da imitação da hormona GLP-1, que estimula a produção de insulina, regula o açúcar no sangue e aumenta a sensação de saciedade. Como consequência, alguns doentes podem perder peso.
O problema surge quando existem prescrições médicas deste medicamento sem critérios rigorosos. Isso pode levar à escassez do medicamento nas farmácias, prejudicando os doentes que realmente necessitam dele.

Importa reforçar que medicamentos como o Ozempic® não substituem o tratamento médico da Obesidade, que deve assentar numa abordagem multidisciplinar, com avaliação clínica rigorosa, acompanhamento nutricional e, sempre que necessário, apoio psicológico.
Quando integrados num plano clínico personalizado e com acompanhamento, estes medicamentos podem ter um impacto relevante na melhoria da saúde metabólica, na redução do risco cardiovascular e na promoção da qualidade de vida. Mas esta utilização requer alguns cuidados e pode estar associada a efeitos secundários, sobretudo nas fases iniciais do tratamento. A prescrição e o seguimento médico são fundamentais, permitindo ajustar a dose e otimizar a tolerância.

Os efeitos secundários mais frequentes incluem náuseas, vómitos, diarreia ou obstipação, sendo habitualmente transitórios e de intensidade ligeira a moderada. Podem também ocorrer diminuição do apetite, desconforto abdominal ou sensação de saciedade precoce.
Esta terapêutica deve ser utilizada com precaução e não está recomendada em algumas situações específicas, como durante a gravidez, em indivíduos com antecedentes de pancreatite, diabetes tipo 1, insuficiência cardíaca em fase avançada, retinopatia diabética, bem como noutras condições clínicas que requeiram avaliação médica individualizada.
 

Num mundo ideal, que medidas podiam ser tomadas para prevenir a Obesidade?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Para prevenir a Obesidade é, acima de tudo, essencial evitar a Obesidade nas crianças. Embora exista, em alguns casos, uma predisposição genética, é sobretudo o contexto em que a criança cresce que se torna determinante. 
Vivemos num cenário que favorece o sedentarismo e um baixo gasto energético diário, ao qual se junta uma má alimentação, facilitada pela enorme disponibilidade de fast-food e alimentos ultraprocessados. Não é uma relação matemática absoluta, mas a probabilidade de uma criança com bons hábitos alimentares vir a ser obesa é substancialmente menor.
E a realidade atual é preocupante: uma criança obesa tem mais de 80% de probabilidade de se tornar um adulto obeso. 
Para inverter este ciclo, seria essencial implementar medidas que envolvam toda a comunidade, tais como:
 
  • Promoção de atividades físicas regulares: para garantir que as crianças tenham gasto energético diário adequado, combatendo o sedentarismo
  • Envolvimento familiar e escolar: sensibilizar pais, mães, tios, avós e educadores, para que participem ativamente nos hábitos de vida saudáveis das crianças
  • Programas de sensibilização: dirigidos à população em geral e à classe médica, para aumentar conhecimento sobre prevenção e a eficácia dos novos tratamentos
  • Políticas de saúde fortes: que valorizem as equipas profissionais do Sistema Nacional de Saúde (SNS) e assegurem acesso a médicos de família, fundamental para uma avaliação precoce
     
A Obesidade é uma doença endémica, mas a ciência já dispõe de meios eficazes para prevenir e reduzir o seu impacto na população.
 

É possível controlar a Obesidade?

Dr. Rodrigo de Oliveira - Cirurgião Bariátrico e Metabólico - Sim. A Obesidade é uma doença metabólica crónica complexa, com impacto profundo na saúde individual e coletiva. Não é uma escolha, nem uma responsabilidade individual isolada — é uma doença que deve ser diagnosticada e tratada com o mesmo rigor que qualquer outra condição crónica.
O diagnóstico precoce, o tratamento médico adequado e a prevenção da Obesidade devem ser encarados como prioridades de saúde pública.
Com um acompanhamento especializado multidisciplinar, é possível controlar a doença, reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida dos doentes.

Entrevista a

Rodrigo de Oliveira

Médico Cirurgião Especialista em Obesidade (Cédula Profissional: OM 46982)

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