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Da dermatite à insolação: efeitos do calor no corpo humano

08 Agosto 22   |   1315
A Insolação é a doença mais grave relacionada com o calor. É uma emergência médica que justifica uma chamada para o 112. No entanto, existem outras doenças relacionadas com o calor, com menor gravidade, devido à incapacidade do organismo autorregular a sua temperatura.
O Dr. Henrique Durão, médico de Medicina Interna na Cintramédica, explica os mecanismos de termorregulação do corpo humano, dando a conhecer não só como o organismo lida com a temperatura, como explica as causas das doenças relacionadas com o calor e como proceder em caso de insolação.
 
O calor no corpo
A produção do calor humano é uma reação isotérmica, e que aumenta durante um esforço físico maior. A reação isotérmica é um processo termodinâmico, no qual a temperatura do organismo se deve manter constante. O calor do ambiente junta-se ao calor do corpo e impede a dissipação da temperatura.
 
Esta transferência de temperatura ocorre através de:
 
  • Condução: a condutividade térmica da água é 25 vezes menor do que a do ar, e é por isso que uma pessoa dentro de água perde 25 vezes mais depressa o calor que tem dentro de si, comparado ao que perderia se estivesse exposto ao ar.
  • Convecção: se a temperatura do ar exceder a temperatura média da pele, o corpo ganha calor. A perda de calor por convecção varia em proporção direta com a velocidade do vento, ou seja, quanto mais intenso for o vento, mais rapidamente a pessoa arrefece.
  • Radiação: é a transferência de calor por ondas eletromagnéticas. Em climas quentes é a maior fonte de ganho de calor e de subida de temperatura do corpo.
  • Evaporação: à medida que a temperatura ambiente aumenta, o mecanismo dominante da perda de calor é a evaporação.

A regulação do calor faz-se através de sensores térmicos na pele e no hipotálamo (suor ou mudanças no comportamento), uma área central que integra a informação recebida dos sensores, considerado o termostato do corpo. Por outro lado, existem reações termorreguladoras que causam o suor e a vasodilatação (os vasos de sangue dilatam-se).
 
Como uma máquina
Vamos tomar por exemplo um carro: o refrigerante (sangue) é impulsionado por uma bomba (coração), e circula do interior mais quente do motor (dentro do corpo) para o radiador (que é a pele, que arrefece com a evaporação do suor).
A temperatura é medida por um termómetro (o termostato no sistema nervoso central) que comanda o fluxo do refrigerante (sangue) por um sistema de tubos, válvulas e reservatórios (vasos sanguíneos).
Se qualquer um destes mecanismos falhar, o supra aquecimento pode acontecer (o carro/corpo fica quente demais).
 
Adaptação diária
A aclimatização à temperatura ambiente requer uma adaptação diária ao calor (entre 1 a 2 semanas). Quando a temperatura ambiente muda drasticamente a pessoa começa a suar mais depressa, com maior volume de suor e com um teor de sódio no suor mais baixo. Para manter estas respostas de adaptação, a pessoa deve expor-se ao calor de modo intermitente, com intervalos de 4 dias. Se não houver calor dentro de uma semana o volume plasmático contrai.
 
Quem está mais em risco de insolação?
Há duas populações que têm maior risco de doenças relacionadas com o calor:
  • Os atletas (como os jogadores da seleção portuguesa no Qatar) e os militares
  • Os idosos e as pessoas mais desfavorecidas
Os jogadores de futebol são os que estão em maior risco. E porquê? Simples – um jogador de futebol bem condicionado fisicamente (um “Ronaldo”) não tem que necessariamente estar bem aclimatizado.
 
Os fatores que predispõem a doenças relacionadas com as ondas de calor dividem-se em 2 grupos:
  • Relacionados com exercício, na qual se inclui a falta de aclimatização, uma hidratação inadequada, atletas de alta competição, e uma medida meteorológica chamada WBGT (sigla que vem do inglês WetBulb Globe Temperature) acima dos 25°C. Esta WBGT é uma fórmula que leva em conta a humidade, a velocidade do vento, o ângulo do Sol e a cobertura das nuvens (radiação solar)
  • Não relacionados com exercício, e que aumentam o risco de insolação: uma idade avançada, doenças crónicas, obesidade, doenças do foro psiquiátrico e, muito importante, certos medicamentos (estimulantes, anticolinérgicos, bloqueadores beta, bloqueadores de cálcio, diuréticos, etc)
 
Doenças relacionadas com calor
Do ponto de vista médico, clinicamente as doenças relacionadas com o calor dividem-se em 3 grupos:
  1. Doenças menores
  2. Golpe de calor (em atletas e recrutas militares)
  3. Insolação (em pessoas debilitadas, desfavorecidas, mais idosas, alcoolismo)
 
  1. As doenças menores são a dermatite, os edemas (pés e pernas inchadas), a síncope (o desmaio) e as cãibras
     
  2. O golpe de calor, que se manifesta por um mal-estar geral, fadiga (mais cansaço), uma dor de cabeça, uma tensão arterial baixa quando a pessoa se põe de pé ou se levanta, e uma desidratação clínica (a pessoa quer água), um pulso mais rápido. Hipoglicemias (açúcar baixo) e coagulopatias também podem ocorrer.
     
  3. A insolação, condição na qual a pessoa apresenta uma disfunção do sistema nervoso, desde o delírio, a convulsões, até ao coma. A pessoa pode ter alucinações, um comportamento estranho, até bizarro, ficar muito rijo. A temperatura do corpo é muito alta, (qualquer temperatura acima dos 40°C), a pele muito quente, o pulso muito rápido (há várias taquiarritmias) e o suor pode persistir (geralmente pára-se de suar). Se o doente fizer análises ao sangue há sempre anomalias.
 
Como atuar em caso de insolação ou golpe de calor?
Se a pessoa estiver numa destas condições, é importante não dar aspirinas ou Ben U Rons (evitar qualquer antipirético).
O que se pode fazer:
  • Baixar a temperatura o mais rapidamente possível
  • Retirar toda a roupa
  • Passar água morna no corpo
  • Colocar ventoinhas a trabalhar constantemente viradas para cima da pessoa
  • Aplicar pacotes de gelo nas virilhas, axilas e pescoço
  • Colocar a pessoa em água gelada

A pessoa pode estar hipotensa (tensão arterial muito baixa), ou com uma insuficiência cardíaca direita ou edema pulmonar.
Só um profissional de saúde pode avaliar. Em caso de suspeita de golpe de calor ou insolação deve ligar o 112. O tratamento deverá estar focado no arrefecimento da pessoa.

Autor do artigo

Henrique Durão

Médico de Medicina Interna