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Endometriose: quais os sintomas e como se pode tratar

27 Janeiro 22   |   3042
A endometriose é uma doença benigna que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. Trata-se de uma patologia crónica, inflamatória e está relacionada com a produção de estrogénio. Não tem cura, mas pode ser controlada com o tratamento adequado. O Professor Doutor Dusan Djokovic, ginecologista na Cintramédica, ajuda-nos a obter respostas para esta doença que afeta cerca de 350 mil mulheres em Portugal.
 
O que é a endometriose e o que é que a provoca?
O endométrio é o tecido que reveste o interior do útero. Durante a idade reprodutiva e na ausência da fecundação, este tecido descama e regenera-se ciclicamente.
A endometriose ocorre quando o tecido do endométrio se encontra fora da cavidade uterina, dando origem àquilo que se designa como implantes endometrióticos. Esses implantes podem encontrar-se, por exemplo, no interior do músculo uterino (adenomiose) ou em qualquer outra estrutura anatómica pélvica (peritoneu, trompas de Falópio, ovários, vagina, bexiga ou intestinos) ou, mais raramente, extra-pélvica (diafragma, umbigo, parede abdominal, pulmões ou cérebro).
O tecido fora do útero (implantes endometrióticos) reage à hormona (estrogénio) de forma semelhante ao endométrio normal, o que leva a que ciclos repetidos de crescimento e descamação conduzam à inflamação e fibrose, danificando as estruturas normais onde a doença se localiza.
Várias teorias têm sido propostas para explicar a origem da endometriose. Embora nenhuma teoria explique todos os tipos e localizações das lesões, a teoria da “menstruação retrógrada” continua a ser a mais consensual. A menstruação retrógrada (menstruação que flui através das trompas de Falópio) é um fenómeno que se estima ocorrer em 70% das mulheres e que pode provocar a endometriose.
No entanto, e apesar da intensa investigação científica, os complexos mecanismos responsáveis ​​pelo desenvolvimento desta doença são ainda pouco compreendidos.
 
Quais os sintomas mais prevalentes?
São variáveis, podem manifestar-se de modos bastante diferentes. A endometriose pode ser assintomática, manifestar-se por dor pélvica intensa, diminuição da fertilidade ou apresentar sintomas noutros órgãos.
Os sintomas mais frequentes associados à endometriose pélvica são:
  • Períodos menstruais dolorosos (dismenorreia)
  • Dor pélvica crónica não cíclica, pouco específica, habitualmente tipo moinha, focal ou difusa
  • Dor ao urinar (disúria)
  • Dor ao evacuar (disquezia)
  • Dor abdominal ou lombar
  • Dor pélvica aguda associada a rotura, hemorragia ou infeção de uma lesão ovárica "quisto de chocolate" (endometrioma)
A endometriose pode também causar infertilidade, uma vez que pode provocar uma distorção anatómica das estruturas pélvicas, além de um eventual efeito tóxico das lesões. Podem haver ainda outros sintomas associados à endometriose pélvica como a hemorragia uterina anómala, dor nos membros inferiores, dor ciática, presença de sangue na urina (hematúria), saída de sangue pelo ânus (retorragia), fadiga crónica, depressão, ansiedade, diminuição da satisfação sexual e da qualidade de vida.
Os sintomas geralmente melhoram após a menopausa, mas, em alguns casos, a presença de dor pode persistir. Acredita-se que a dor crónica em mulheres com endometriose reflete uma sensibilização do sistema nervoso central (denominada “sensibilização central”), com hiper-reatividade dos centros de dor. Este fenómeno pode ocorrer em qualquer ponto da evolução da doença, podendo persistir mesmo quando lesões de endometriose já não são visíveis.
 
Muitos casos são assintomáticos. Como podem ser detetados e qual a importância de um diagnóstico precoce?
Uma das características da endometriose é que não existe uma correlação entre a gravidade das lesões e a presença ou intensidade dos sintomas. É possível estar assintomático e ter uma endometriose bastante avançada.
Esta é uma doença com implicações clínicas, sociais e económicas significativas, para a qual não existem, atualmente, medidas eficazes de prevenção. É por isso fundamental que se invista numa consciencialização da população sobre o diagnóstico precoce através da avaliação clínica, exames de diagnóstico e, se necessário, cirurgia laparoscópica. Também é importante dar a conhecer que, com um tratamento adequado e multidisciplinar, é possível retardar ou interromper a progressão natural da doença, reduzir o impacto dos sintomas e o risco de “sensibilização central”.

 

Como é construído o diagnóstico e que exames complementares podem ajudar a compreender a extensão da doença?
A história clínica completa e um exame médico minucioso são fundamentais. A suspeita de endometriose é um elemento-chave no diagnóstico precoce, sobretudo porque a endometriose pode, muitas vezes, apresentar sintomas semelhantes a outras doenças, o que pode contribuir para um atraso no diagnóstico. Por isso deve considerar-se o diagnóstico de endometriose não só na presença dos sintomas anteriormente descritos como também:
  • Na identificação de um nódulo vaginal ou perineal doloroso
  • Na deteção de um tumor palpável na região dos ovários
  • Na presença de um útero de mobilidade reduzida detetado no exame ginecológico de uma doente da idade reprodutiva
O diagnóstico definitivo da endometriose é estabelecido através da análise histológica (Anatomia Patológica) do tecido obtido por biópsia (na maioria dos casos realizada durante uma avaliação cirúrgica denominada laparoscopia).
No entanto, nem sempre é desejável e/ou possível a realização desta biópsia. Nesses casos, a visualização de lesões em ecografia com sonda transvaginal, ressonância magnética ou em laparoscopia sem biópsia, aliada à presença de sinais e sintomas, justifica o início do tratamento da endometriose.
Finalmente, e dependendo das queixas, pode ainda ser necessário efetuar uma cistoscopia, retosigmoidoscopia ou outro exame complementar de diagnóstico.
 
No que consiste o tratamento para a endometriose?
Sendo uma doença complexa, o tratamento da endometriose deve ser multidisciplinar e realizado por equipas subespecializadas. Além do apoio psicológico, o tratamento pode incluir medicação e/ou cirurgia.
Entre a medicação incluem-se os esteroides contracetivos, anti-inflamatórios não esteroides e analgésicos quando não existem contraindicações. O tratamento hormonal (que altera o ambiente molecular que promove a endometriose) inclui a pílula anticoncecional combinada, anel contracetivo vaginal, adesivo anticoncecional, progestativos isolados ("pílula de amamentação", implante subcutâneo, sistema intrauterino com levonorgestrel) e equivalentes à hormona de crescimento (GnRH). No entanto, é importante deixar claro que nenhum destes tratamentos cura esta doença. Dependendo de caso para caso, os sintomas podem voltar após a interrupção da terapia hormonal.
Numa abordagem cirúrgica, pode remover-se as lesões de endometriose, fibrose (tecido cicatricial) e aderências. Em relação à redução dos sintomas e ao aumento das taxas de gravidez, o sucesso cirúrgico depende da extensão da doença. As lesões podem voltar mesmo após a remoção completa dos implantes endometrióticos.
 
A endometriose afeta cerca de metade das mulheres com infertilidade. É possível reverter essa situação e vir a ter filhos?
Cerca de 50% das mulheres com sintomas de endometriose têm dificuldade em engravidar. Para reverter a infertilidade, as opções disponíveis passam por:
  • A remoção das lesões e a restauração da anatomia pélvica normal (através de cirurgia laparoscópica)
  • Inseminação intrauterina (IIU)
  • Fertilização in vitro (FIV)
No entanto, as taxas de sucesso em engravidar variam. Deverá ter em atenção que alguns quistos ováricos podem sofrer alterações e parecerem semelhantes a tumores com potencial maligno. Conhecer esse facto é importante para evitar cirurgias desnecessárias.
Por outro lado, uma mulher com endometriose que engravida não irá ter problemas adicionais durante a gestação. A doença tende a estabilizar-se durante a gravidez e amamentação. Os sintomas melhoram e, muitas vezes, desaparecem completamente.

Entrevista a

Dusan Djokovic

Ginecologista