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Traumatismo crânio-encefálico nas crianças: o que é e quais os cuidados a ter

12 Abril 22   |   251

O traumatismo crânio-encefálico nas crianças é uma situação que abrange um conjunto de alterações no crânio (na pele, no osso, no cérebro, etc.) causadas por uma força externa. Esta força pode ser direta (em resultado de um choque provocado por uma queda/embate ou por ação de um objeto penetrante) ou indireta, sendo que neste caso é, muitas vezes, provocada por maus tratos (chocalhar o bebé ou o perigoso “shaken baby syndrome”), situação que acaba por causar alterações mais difusas e crónicas.

 

Traumatismo crânio-encefálico nas crianças: frequência e gravidade

O traumatismo crânio-encefálico (TCE) em crianças é frequente em idade pediátrica. Na maior parte dos casos é ligeiro, ou seja, não provoca lesões intracranianas. No entanto, o impacto funcional pode ser bastante diferente do observado nos adultos, além de que as suas consequências podem não ser imediatamente visíveis porque o cérebro das crianças ainda está em desenvolvimento. Calcula-se que a maioria dos TCE ocorram em crianças dos 0-4 anos de idade, sobretudo por causa de quedas. No entanto, o segundo maior pico de incidência ocorre nos maiores de 15 anos, fruto dos acidentes de desporto, de bicicleta/skate, de viação e assaltos.

Alguns estudos epidemiológicos calculam que apenas 5% dos TCE são moderados (segundo a escala mais usada em TCE - Escala de Coma de Glasgow de 9-12) ou graves (Glasgow < 9). Ainda assim, o TCE é a causa mais frequente de morte ou incapacidade em crianças com mais de 1 ano de idade.

O TCE pode ir desde uma concussão (TCE ligeiro), até uma ferida profunda ou aberta, uma fratura craniana (simples/complexa, alinhada/desalinhada ou afundada) com ou sem hemorragia intracraniana (contusão, hematoma epidural, subdural, subaracnoideu, intraparenquimatoso, etc.) ou outras lesões cerebrais.

 

Quais são os sintomas de um TCE em crianças?

Os sintomas dependem da criança, da sua idade e da gravidade da lesão.

Os sintomas de TCE ligeiro podem ser:

  • Tumefação ou “inchaço”
  • Ferida ou “corte” pequeno e superficial no couro cabeludo
  • Dor de cabeça
  • Sensibilidade ao ruído e à luz
  • Irritabilidade ou comportamento anormal
  • Confusão
  • Tonturas ou vertigens
  • Desequilíbrio
  • Náuseas ligeiras
  • Problemas de memória ou concentração
  • Mudança nos padrões de sono
  • Visão turva ou dupla
  • Zumbidos nos ouvidos
  • Mudanças no paladar
  • Cansaço ou falta de energia no geral

Os sintomas de TCE moderado a grave podem incluir qualquer um dos descritos acima, além de:

  • Perda de consciência
  • Dor de cabeça mais forte e que não passa nem com medicação
  • Náuseas e vómitos repetidos
  • Perda de memória de curto prazo (amnésia pós-traumática)
  • Perturbação da fala
  • Perturbação da marcha
  • Fraqueza num dos lados ou área do corpo ou outro défice neurológico focal
  • Palidez e sudorese (transpiração) com alterações cardiovasculares
  • Convulsões ou crise epilética
  • Sangue ou líquido transparente a sair dos ouvidos ou nariz (líquor cefalorraquidiano, podendo significar uma fratura da base do crânio)
  • Pupilas assimétricas (parece maior num dos olhos)
  • Ferida profunda no couro cabeludo (podendo ver-se osso ou mais)
  • Perda de consciência que não se consegue despertar (coma)

 

Como se diagnostica um TCE numa criança?

Se reconhecer algum dos sintomas supramencionados após um traumatismo direto ou indireto, o primeiro passo é levar a criança a um Serviço de Urgência Pediátrica para que seja observada por um especialista treinado. É este profissional médico que tem a capacidade de reconhecer os sinais e sintomas, eventualmente utilizando escalas que ajudam a determinar a gravidade do TCE e o que fazer a seguir.

Os exames complementares de diagnóstico, nomeadamente a realização de Tomografia Computadorizada (TAC), um exame com exposição indesejada de radiação, deve ser apenas pedido se se justificar clinicamente, isto é, em caso de suspeita de TCE mais grave.

 

Como é tratada uma criança com TCE?

O tratamento varia consoante a gravidade e o tipo de TCE, os sintomas, a idade e a saúde geral da criança.

Este pode incluir:

  • Descanso
  • Gelo local
  • Desinfeção da ferida, sutura, outro tipo de curativo
  • Ser observado por um período de tempo no hospital, de modo a perceber a evolução dos sintomas ou de alguma lesão já diagnosticada.

Uma criança também pode precisar de:

  • Medicação para dores, náuseas/vómitos, relaxar ou dormir
  • Exames de diagnóstico (Análises, Raio-X, TAC, Ressonância Magnética, etc.)
  • Ajuda com a respiração de uma máquina (ventilador mecânico)
  • Observação por um neurocirurgião e eventual internamento em Unidade de Cuidados Intensivos (no caso de TCE de maior gravidade)
  • Cirurgia craniana

 

Como e quando a criança pode voltar à vida normal?

Após um período de descanso (24-48h de descanso físico e cognitivo no caso do TCE ligeiro) a criança deve ir retomando as atividades diárias com esforços crescentes com intervalo de, pelo menos, 24h, retrocedendo se se observar agravamento de queixas/sintomas.

O mesmo deve ser feito com o regresso à escola e a atividades mais mentais. Todas as atividades cognitivas não essências (como jogar videojogos) devem ser reintroduzidas só após uma rotina física quase normal.

No caso de persistência de sintomas por período superior a 4 semanas, a criança deve ser referenciada a um especialista, podendo tratar-se de um Síndrome Pós-concussão. Outras vezes existem alterações intracranianas que merecem vigilância da sua evolução, como alguns hematomas ou fraturas.

 

Quais são as possíveis complicações de um TCE numa criança?

As crianças que sofrem de TCE grave podem perder algumas funções de força muscular, fala, visão, audição ou paladar, dependendo da área onde o cérebro foi danificado. Mudanças de personalidade ou no comportamento também podem ocorrer a curto ou longo prazo.

A reavaliação de crianças com TCE tem em consideração os comportamentos, pontos fortes e necessidades da criança ao longo do seu desenvolvimento e reabilitação após o TCE, incluindo o regresso à escola e a atividades desportivas. Para as crianças é particularmente útil focarmo-nos na avaliação de áreas críticas para a aprendizagem e para o sucesso escolar. Esta requer uma colaboração contínua com a família, escola e profissionais médicos, cirúrgicos e de reabilitação. Ainda assim, o quão bem uma criança recupera de um TCE depende do tipo de lesão e de outros problemas de saúde que possam estar presentes.

 

Como posso ajudar a evitar um TCE numa criança?
  • Garantir locais seguros para brincar (pavimentos macios ou almofadados)
  • Verificação do uso de assentos e cintos de segurança ao andar em qualquer veículo
  • Certificar-se do uso de capacetes ao praticar desporto de risco como andar de bicicleta, andar de patins, andar de skate ou esquiar

 

Referências Bibliográficas:

Autor do artigo

Lídia Nunes Dias

Neurocirurgiã