"Olá, eu sou a Alice!"
Fale por aqui com a
nossa Assistente Digital

Síndrome Inflamatória Multissistémica em Crianças: sequelas da COVID-19

23 Fevereiro 22   |   3899
A Síndrome Inflamatória Multissistémica em Crianças é uma complicação decorrente da COVID-19 que pode ter consequências graves em crianças. A Dra Laura Oliveira, Pediatra na Cintramédica, ajuda-nos a perceber esta patologia.

A infeção por SARS-CoV-2 em Pediatria, em geral, tem manifestações ligeiras e passageiras, sendo até, numa grande percentagem dos casos, assintomática.
No entanto, sobretudo em crianças com comorbilidades e em latentes, a infeção pode complicar-se com: síndrome respiratória aguda grave, pneumonias, meningites e outros quadros neurológicos.
Uma das complicações mais estudadas, embora tardias da infeção, é a denominada Síndrome Inflamatória Multissistémica em crianças (MIS-C). Embora não se conheça bem a sua incidência, parece ocorrer em menos de 1% das crianças com infeção confirmada por SARS-CoV-2.
A maioria dos casos de MIS-C ocorre em crianças mais velhas e adolescentes previamente saudáveis, o que difere das complicações agudas graves por COVID-19 em Pediatria, que ocorrem sobretudo em crianças com problemas de saúde subjacentes, como já referido.
 
Quando surge?
A MIS-C parece ser uma complicação pós-infecciosa do vírus, já que surge quase sempre algumas semanas após a infeção viral. A sua fisiopatologia (origem e natureza) não é bem compreendida, mas suspeita-se que possa haver uma desregulação imunológica. Essa resposta exagerada do organismo ao agressor (vírus) poderá ser responsável pela inflamação de vários órgãos, como coração, pulmões, cérebro, rins, mas também no sistema digestivo, pele e olhos.
O início dos sintomas em relação à infeção aguda por SARS-CoV-2 é variável e ocorre em geral, entre duas a seis semanas. Mesmo casos assintomáticos podem complicar-se de MIS-C.
 
Quais são os sintomas?
As formas de apresentação diferem de caso para caso, mas uma febre persistente, sem origem clínica clara, é a primeira pista. Qualquer febre, acompanhada de sintomas graves ou coincidentes com a exposição recente a uma pessoa com COVID-19, deve levantar suspeitas clínicas.
Grande parte dos casos tem sintomas gastrointestinais acompanhantes (dor abdominal, vómito, diarreia), erupções cutâneas, envolvimento da membrana mucosa (lábios vermelhos ou inchados, língua de morango), cansaço extremo, dificuldade em respirar, diminuição da pressão arterial. Nalguns casos há sintomas neurocognitivos e, numa percentagem menor, sintomas respiratórios, dor de garganta, mialgia, mãos e pés inchados e linfadenopatia (gânglios inchados).
A dor abdominal é particularmente intensa, simulando muitas das vezes quadros de apendicite.
 
Complicações da Síndrome Inflamatória Multissistémica
Os sintomas neurocognitivos são comuns e podem incluir dor de cabeça, letargia, confusão mental ou irritabilidade. Uma minoria de pacientes apresenta manifestações neurológicas mais graves, incluindo encefalopatia, convulsões, coma, acidente vascular cerebral, meningoencefalite, fraqueza muscular e sinais do tronco cerebral e/ou cerebelar.
O envolvimento cardíaco é comum, sendo os sintomas respiratórios (taquipneia e dificuldade respiratória), quando presentes, decorrentes de choque ou edema pulmonar cardiogénico. A tosse é incomum.
O envolvimento cardíaco é muito frequente na MIS-C. Em várias séries estudadas, aproximadamente 30 a 40% das crianças, apresentavam disfunção miocárdica e insuficiência cardíaca. Felizmente, na vasta maioria dos pacientes, a função cardíaca normaliza nos primeiros 30 dias.
Dificuldade em respirar, dor ou pressão no peito, um estado confusional, incapacidade de acordar ou de se manter acordado, lábios e pele pálidos, acinzentados ou roxos e dores de barriga intensas, deve fazer suspeitar de MIS–C, pelo que é recomendado a avaliação urgente em meio hospitalar.
Diferentes definições de caso foram usadas em diferentes estudos, mas à medida que se aprende mais sobre o MIS-C, torna-se evidente que existe um amplo espectro de gravidade da doença. É possível que, à medida que o reconhecimento de formas mais leves de MIS-C aumente, a incidência de choque, disfunção ventricular esquerda, insuficiência respiratória e lesão renal aguda seja menor. Enquanto isso a melhor prevenção parece ser a vacinação. 

Autor do artigo

Laura Sofia Oliveira

Pediatra