Dar sangue salva vidas: saiba como!

data de publicação14 Junho 2024 artigo revisto por
Dr. Christopher J. Saunders  |  Hematologista

Em 2022 houve mais de 200 mil pessoas que decidiram dar sangue. De acordo com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação, estas dádivas ajudaram mais de 90 mil doentes. Se ainda não é dador, fique a saber o que precisa para ser, onde pode fazer a sua dádiva e quais os benefícios deste gesto. Saiba também o que acontece ao sangue quando é doado e quem estará potencialmente a ajudar. Afinal, um dia pode ser você a precisar de receber sangue.
 

Quem pode dar sangue?

À partida qualquer pessoa que tenha mais de 18 anos e menos de 65, ainda que o limite máximo de idade dependa de uma autorização médica, pode dar sangue. Além da idade, os requisitos fundamentais são ter mais de 50kg e estar de boa saúde.
Cada dádiva de sangue total implica uma recolha de 450 ml, ou seja, apenas 10% do sangue que um adulto tem. É recomendado que faça uma refeição ligeira antes de dar sangue e que, depois da dádiva, reforce a ingestão de líquidos.
Só demora 30 minutos a dar sangue. Os intervalos mínimos entre cada doação que um indivíduo pode fazer são de 60 dias para os homens e de 90 dias para as mulheres.
Só se pode doar o máximo de 3 vezes por ano se for mulher e 4 se for homem.
 

Principais benefícios e situações particulares

Doar sangue traz muitos benefícios. Em primeiro lugar, e de acordo com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação, cada dádiva pode ajudar a salvar a vida de 3 pessoas.
Por outro lado, e uma vez que cada pessoa que doa sangue é submetida a um exame físico para verificar se está saudável, estará (em princípio) mais sensibilizado para as vantagens de estar saudável.

No entanto, existem situações, muitas delas temporárias, que podem impedir-nos de dar sangue por um determinado período de tempo. Vejamos algumas:

Vacinas

• COVID-19: aguardar 7 dias
• Gripe: 72 horas
• Hepatite A e B: 1 semana
• HPV e Tétano: pode efetuar logo a dádiva

Piercings e tatuagens

Deve aguardar 4 meses após o último procedimento antes de realizar a sua dádiva de sangue.

Medicação

No momento da dádiva de sangue, deve informar o profissional de saúde na triagem da medicação que está a efetuar.
Se está a tomar aspirina ou anti-inflamatórios não-esteroides (ibuprofeno, por exemplo) deve reservar pelo menos 5 horas após a toma deste tipo de medicamentos antes de dar sangue.

Viagens

Se fez alguma viagem recente, ou se viajou no passado para algum país que possa ser considerado de risco devido a doenças infecciosas endémicas, deve informar o profissional de saúde antes de dar sangue. É extremamente importante garantir a segurança do sangue que é recolhido.

Gravidez

Só pode dar sangue 6 meses após o parto.

Amamentação

Pode dar sangue se estiver a amamentar há mais de 1 ano.

Menstruação

Pode fazer a sua dádiva se, no exame preliminar, o seu valor de hemoglobina for superior a 12,5g/dL e se não tiver dores.

Epilepsia

Terá de reservar 3 anos após a última toma de medicação anticonvulsiva e apenas no caso de não ter tido crises durante esse período.

Cirurgia

Dependendo de cada caso, deverá aguardar entre 4 a 6 meses após a cirurgia.

Intervenções dentárias

Se teve consulta com o seu Médico Dentista, existem algumas situações que requerem que aguarde 7 dias após essas intervenções. São elas:
• Extração de dentes
• Colocação de implante
• Intervenção que tenha recorrido a sutura ou retirada de pontos

 

Qual é o tipo de sangue mais necessário?

Vale a pena desfazer o mito que existe um tipo sanguíneo mais necessário do que os outros. De acordo com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação, todos os tipos de sangue são bem vindos!
Vejamos nesta tabela as correspondências dos tipos de sangue para transfusão e a sua distribuição na população portuguesa:
 


 

O- é o “dador universal”
AB+ é o “recetor universal”

Tipo A: mais comum (46,6% da população portuguesa)
Tipo O: 2º mais comum (42,3% população portuguesa)
Tipo B: maior risco de diabetes (7,7% da população)
Tipo AB: o mais raro (3,4% da população portuguesa)
 

O sangue e os seus componentes

Quando é efetuada uma recolha de sangue total, este é separado por um processo automático de centrifugação denominado aférese. Ao ser separado, os vários componentes ficam divididos em 4 partes:



• 55% plasma: transporta glóbulos vermelhos e brancos, proteínas e outras substâncias
• < 1% glóbulos brancos, ou leucócitos, que são os “soldados” do nosso sistema imunitário e nos protegem dos corpos estranhos
• < 1% plaquetas, células que ajudam à coagulação do sangue e previnem a hemorragia
• 45% glóbulos vermelhos, que transportam oxigénio e dióxido de carbono pela corrente sanguínea

Deste modo, é possível fazer uma transfusão para um doente cuja condição requeira determinado componente. Em alguns casos, pode ser necessária uma transfusão de sangue total.
Por outro lado, os vários componentes do sangue podem ser acondicionados de modo a que venham a ser utilizados mais tarde. Vejamos os prazos de cada componente e a quem a sua transfusão pode ajudar:

Plasma

Prazo de validade: 1 ano (congelado)
A transfusão de plasma serve para controlar hemorragias ativas e promover a coagulação do sangue. É indicada a doentes em cuidados intensivos, transplantes de órgão sólido ou politraumatizados (acidentes de viação, por exemplo)

Plaquetas

Prazo de validade: 5 dias
A transfusão de plaquetas é essencial na prevenção de hemorragias resultantes de infeções, virais ou infecciosas, assim como em cirurgias, ou para quem esteja a ser submetido a tratamentos de quimioterapia

Glóbulos vermelhos (eritrócitos)

Prazo de validade: 35 a 40 dias
A transfusão de glóbulos vermelhos é utilizada no tratamento de anemias agudas graves, anemias crónicas, falência renal, entre outros
 

Dádivas de sangue total ou dos seus componentes

Como referido, a maior parte das dádivas são de sangue total (450ml por colheita).
No entanto, e caso seja elegível, pode também efetuar dádivas de componentes sanguíneos específicos.

A dádiva (dupla) de glóbulos vermelhos tem requisitos especiais (os candidatos devem pesar pelo menos 70Kg). Caso tenha mais de 14g de hemoglobina no sangue (após avaliação preliminar), pode ser convidado a fazer uma doação dupla de glóbulos vermelhos. Neste tipo de dádiva são recolhidos os glóbulos vermelhos e devolvidas as plaquetas e plasma ao dador. O procedimento é automático e colhe glóbulos vermelhos suficientes para 2 pacientes. Os dadores do tipo O são os mais valiosos para este tipo de dádiva. O processo demora 1 hora e pode ser feito de 6 em 6 meses.

Já a dádiva de plaquetas recorre a uma tecnologia automatizada para colher um concentrado de plaquetas, células imprescindíveis para a coagulação e necessárias para doentes oncológicos, quer pela doença, quer pelos tratamentos a que são submetidos. Este processo demora 2 horas e meia e pode ser feito de 2 em 2 semanas.
Nestes dois tipos de dádiva, o sangue é retirado do braço e passa por uma centrifugadora especial e esterilizada que separa os vários componentes (aférese), sendo os outros componentes devolvidos ao dador.

 

Dar sangue: salvar vidas hoje e amanhã

Em 2022 houve mais de 200 mil pessoas que deram sangue.
As suas dádivas ajudaram a salvar vidas como:
• Pessoas com doenças graves, como cancro ou problemas de coagulação do sangue e que precisem de transfusões
• Vítimas de traumas, como acidentes de viação, quedas ou lesões que conduzam a perdas de sangue.
• Pessoas em cirurgia, como cirurgias cardíacas ou transplantes
• Mulheres em trabalho de parto que percam muito sangue
• Recém nascidos com anemia, por exemplo

Por outro lado, o sangue recolhido pode ser utilizado no desenvolvimento de novos tratamentos das Ciências Médicas para doenças como o cancro, anemia falciforme ou doenças do sangue, ajudando a produzir novos medicamentos e terapias que venham a salvar vidas no futuro.
 

Onde dar sangue?

Existem unidades de recolha em todo o país.
Se ainda não é dador ou, caso seja, pode verificar qual o Centro de Colheita mais próximo de si, assim como os horários para a doação de sangue, clique no botão em baixo.

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Christopher J. Saunders

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